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Por Frei Betto
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Fraternidade e Povos Indígenas é o tema da Campanha da Fraternidade deste ano,
promovida pela CNBB. O lema é "Por uma terra sem males".
O manual da campanha estima que, em 1500, viviam aqui cerca de 6 milhões de
indígenas,
distribuídos por mais de 900 povos de diferentes culturas. Hoje, a população
indígena do país é de 550.438 pessoas, pertencentes a 225 povos e falando
cerca de 180 idiomas.
No mundo, há 300 milhões de índios, dos quais 40 milhões no continente
americano. No Brasil, cerca
de 350 mil índios vivem em seus territórios, e
outros 191 mil migraram para os centros urbanos. Calcula-se que 900 pertencem a
povos ainda não contatados. Das 771 terras indígenas, 68% ainda não estão
definitivamente demarcadas. Em 178 delas, o processo sequer foi iniciado. Falta
ao país aprovar um Estatuto dos Povos Indígenas, de modo que eles tenham seus
direitos rigorosamente reconhecidos e respeitados. |
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As escolas deveriam ser as primeiras a valorizar a cultura indígena como um antídoto
à nossa sociedade consumista, que mantém uma relação utilitarista com a
natureza e preconceituosa com os que não dobram os joelhos diante do dinheiro.
Assim, não haveria o risco de adolescentes queimarem índios como quem malha
Judas. |
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A terra é, para os povos indígenas, o espaço vital, sagrado, onde residem os
espíritos dos ancestrais, e da qual são extraídos os bens da vida sem
prejudicar o equilíbrio ecológico. Dela eles não esperam lucros, mas
bem-estar comunitário. Como dizia Xicão Xukuru, assassinado em 1998 na luta
por seu território, a gente tem a terra como nossa mãe. Ela nos dá todo fruto
de sobrevivência, ela deve ser zelada e preservada a partir das pedras, das águas
e das matas.
É expressiva a influência indígena em nossa cultura, da música à língua,
das danças à nutrição, das crenças aos ritos. No entanto, nesses últimos
500 anos eles têm sido vítimas de extermínio, através de genocídio,
escravidão, prostituição, destruição de sua religiosidade, e mediante políticas
oficiais que almejam integrá-los à nossa sociedade, incapaz de reconhecer-lhes
o direito à diferença. No entanto, eles resistem, malgrado as
agressões de
madeireiros e garimpeiros, latifundiários e laboratórios farmacêuticos.
A Igreja católica é, hoje, consciente de sua relação ambígua com os índios
no passado. Ao lado de defensores, como Anchieta e Vieira, havia missionários
que favoreciam a exploração da mão-de-obra indígena através da uma
catequização equivocada. Agora, trata-se de assegurar-lhes o direito à vida,
mantendo com eles o diálogo inter-cultural e inter-religioso, como fazem as irmãzinhas
de Foucauld entre os tapirapé, no Araguaia, reduzidos a 50 em 1950. Dois anos
depois chegaram as religiosas, sem intenção de catequizá-los ou impor-lhes
novos valores. Queriam apenas ser solidárias. Hoje, a população tapirapé é
de 475 pessoas.
Num encontro de teologia indígena, realizado em 1997 na Bolívia, os índios
propuseram que o missionário cristão, ao chegar a uma cultura indígena, passe
pelo processo de inserção; que compreenda e assimile os valores, a cosmovisão
e as expressões religiosas para, assim, descobrir nas culturas a manifestação
de Deus. Porque inculturação é diálogo entre o Evangelho e as
espiritualidades indígenas.
Ameaçados pelas águas que destruíam o mundo - reza a tradição guarani
apapocuva -, Guiraypoty, que se refugiara com a mulher sobre o teto de uma casa,
entoou o nheengaraí, o canto solene guarani. Quando iam ser tragados pelas
águas,
a casa se moveu, girou, flutuou, subiu... até chegar à porta do céu, onde
ficaram morando. Este lugar chama-se Yvy mara ei (terra sem males). Ali as
plantas nascem por si próprias, a mandioca já vem transformada em farinha e a
caça chega morta aos pés dos caçadores. As pessoas nesse lugar não
envelhecem, não morrem e ali não há sofrimento.
Precisamos dar ouvidos ao apelo de Maninha Xukuru-Kariri: "Esperamos que em
um futuro próximo toda a sociedade assuma a questão indígena como sua, como
parte da construção histórica deste país, história camuflada com versões
enganadoras, românticas, mas que precisa ser mostrada na sua face real. A
sociedade precisa assumir a luta indígena, assim como as outras lutas sociais,
dos sem-terra, dos meninos de rua e tantas outras, como uma questão de todos"
(Porantim 222, p.4).
É esta solidariedade que a Campanha da Fraternidade quer suscitar. Tomara que,
neste ano eleitoral, programas e candidatos também contemplem a questão
indígena.
Manter-se indiferente a ela é uma declaração pública de oportunismo
eleitoral, já que é inexpressivo o voto dos povos da floresta. Mas eles são
as nossas raízes e vivem, quando tribalizados, valores que para nós ainda são
utopias. |
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Frei Betto é escritor, autor da novela indigenista "Uala, o amor" (FTD),
entre outros livros.
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